sobre não ter olho ~mágico~ 

Início da noite de domingo. Tava lavando louça e percebo o gato encarando a porta. Fui encarar também e ouvi uns gemidos no hall.
Algum vizinho tá fetichando trepando no corredor, penso. Não vou abrir a porta, né, seria deselegante. Sigo no meu tédio quentinho.

De repente escuto uns gemidos mais longos. 

Algum vizinho tá morrendo e/ou sendo assaltado, penso. Não vou abrir a porta, né, e se for assalto? 

Continua gemendo. Faço a personagem bisbilhoteira de filme e coloco um copo na porta pra ouvir. Só escuto gemido, nenhum barulho de movimento. Vou abrir.

Meu vizinho-fofo-que-escuta-Piaf-e-Bessie-Smith – um senhor de uns 60 anos, grisalho, barba, rabo de cavalo e brincos – caído no chão, de barriga pra cima, olhos abertos, tentando falar. Pronto, vou aparecer no Fantástico.

Inúmeras tentativas de contato se seguiram, tanto com o deitado quanto com a administração do prédio (porteiro-síndico-zelador, ninguém pode fazer nada). Coloco garrafa d’água ao lado dele, cobertor. Mal se mexeu.

Até que numa das visitas pra checar se o deitado tá vivo encontro uma bombinha de asma.

MANO.

Ligo pro Samu (tive que googlar). Conto a respiração dele, mil perguntas, aviso o deitado, desligo com o Samu. Volto pro hall pra avisar novamente o deitado e ele levanta a cabeça. Cordô.

Pede pra eu cancelar o Samu e pra chamar um amigo dele. 

Ok, quedê o número desse amigo? Ih, meu celular tá em casa, no cofre. Peraí, tô no hospital? Onkotô? Moço, você tá na porta da sua casa. E onde você mora? Aqui, ó, sou sua vizinha. Qual o seu nome? Alimac. Prazer, eu sou o Odatied.  Quer tomar um whisky?

Sento no chão e ficamos conversando, um papo de meia hora que vai e volta pro mesmo ponto. Qual o seu nome? Onde você mora? Peraí, tô no hospital? Onkotô? Quer tomar um whisky?

Num ataque de coragem ele levanta e vamos entrando. Deixo ele numa cadeira, ele começa a tirar o tênis. Falo que a melhor hora do dia é essa, tirar tênis e meia. Ele concorda. Levanta, vai pro quarto, senta na cama e começa.

O que eu vim procurar aqui? O telefone do amigo, Odatied. Ah sim, no cofre.

Nessas alturas acho que ele vai tirar uma arma do cofre e me matar.

Acerta a senha na segunda tentativa. Ih Alimac, fiquesperta, esse homem tá bem.

Graças a zeus ele tira dois celulares e fecha o cofre. Ligaí pra ele que eu tenho vergonha de pedir ajuda. Ok. E pra explicar quenheu sou pro amigo?

Oi Ogima, é a Alimac, vizinha do Odatied. Encontrei ele mal e ele quer sua companhia. Quanto tempo? Beleza, brigada.

40 minutos. 40 fucking minutos.

Ele deita na cama, pede pra eu sentar na ponta.

Qual o seu nome mesmo quecê disse? Ah. E você mora onde? Eu tava deitado lá na rua né? Eu sou uma pessoa horrível. Quer tomar um whisky? Ah, eu lembro de você, você me ajudou quando minha chave travou. Eu quero morrer. Você é maravilhosa. Eu sou uma pessoa horrível. Por que cê tá me ajudando?

Digo pra ele que quem ouve Piaf não tem nada de horrível. E por que não ajudar?

Ah, eu sou horrível sim. Ih, o Ogima tá vindo, cancela, fala pra ele não vir, não quero que ele me veja assim.

Tem certeza?

Tenho.

Ogima, vem não, ele tá melhorando. Ah, já tá no caminho? Tá certo.

Qual o seu nome mesmo quecê disse? Ah, e você mora onde? Não acredito que o Ogima tá vindo. Por que ele tá vindo? Não precisa. Cancela. Que horror, eu sou horrível. 

Ó Odatied, ele tá vindo mesmo assim, acho que ele quer te ver e passar um tempo com você. Eu vou esperar ele chegar, tá?

Me conta de você, você fala coisas bonitas, fala mais coisas bonitas. Você é muito bonita. 

Eu acho que eu não confio no seu julgamento agora, mas brigada. 

Apesar dos pedidos dele pra eu falar coisas bonitas, chega aquela hora que nem tem mais o que falar, nem de bonito nem de feio. Só consigo olhar pra minha calça de pijama brilhante e pros meus chinelos de gato. Fico em silêncio, vai que ele dorme.

JESUS Ogima chegou, abençoa. Ele para na porta do quarto e fala pro deitado me deixar ir embora, que tá tarde e que eu preciso descansar. Puxo ele de lado, conto o que aconteceu e volto pra me despedir do deitado.

Odatied, eu vou indo. Precisando de companhia, bate lá em casa. Vamo tomar aquele whisky.

gravedigress dig me a hole I can bury all of my love and all of my holy

Uma coisa que só lembrei agora: como é que eu quero lembrar como eu fui em 2016? 

2004, 2006, 2007, 2009, 2010, 2014. As lembranças mais fortes que tenho de mim mesma nesses anos geraram e ainda geram a autocrítica que eu mais faço e como eu me vejo atualmente. Consigo definir em cenas específicas. E é com essa(s) pessoa(s) que eu lido, na ordem: deslumbrada, depressiva, deslumbrada, idiota, equivocada/equivocada/apaixonada, egoísta.

2016. Com tantos acontecimentos horríveis. Ser alguém de quem dá pra ter orgulho, ou pelo menos não querer morrer com a vergonha de 04, 06, 07, 09, 10 e 14. Dá? Só o tempo vai dizer.

Talvez essa preocupação com como vou julgar alimac2016 no futuro seja só isso, necessidade de vislumbre de futuro. Tentando tirar força do cu pra conseguir imaginar que existe uma próxima etapa e não desistir de tudo tipo nesse minuto.